Projeto MK-Ultra: A História Secreta
INTRODUÇÃO: A soma do que sabemos e do que foi apagado
O termo “Projeto MK-Ultra” hoje funciona como um portal cultural.
Uma expressão que, por si só, desperta:
- paranoia,
- fascínio,
- indignação,
- suspeitas sobre governos,
- e principalmente a sensação de que existe algo por trás da cortina.
O que faz o MK-Ultra ser tão poderoso não é apenas o que foi descoberto, mas sim o que foi apagado. Quando Richard Helms mandou destruir quase toda a documentação do projeto, ele não apenas ocultou crimes, ele criou uma zona de sombras que impulsionou boa parte do imaginário conspiratório dos últimos 50 anos.
O MK-Ultra é o ponto onde história documentada, neurociência primitiva, abusos de Estado e paranoia da Guerra Fria se encontram e formam:
- as lendas sobre o Montauk Project,
- a estética narrativa de Stranger Things,
- casos de indivíduos com supostos poderes psíquicos como Nina Kulagina,
- e discussões reais sobre experiências com LSD em civis e militares sem consentimento.
Este é um mergulho profundo em tudo isso: o que sabemos, o que suspeitamos e o que inventamos.
(Ao final do texto você encontrará links para que você veja arquivos oficiais sobre o MK-Ultra)
CAPÍTULO 1 — O mundo em 1950: medo, psicoses políticas e a busca por controle absoluto
Para entender o MK-Ultra, precisamos olhar para o cenário que o criou.
Após a Segunda Guerra Mundial, o planeta era governado literalmente pelo medo:
- medo da bomba atômica,
- medo da influência soviética,
- medo do comunismo espalhando-se por manipulação psicológica,
- medo de que a mente humana pudesse ser “hackeada”.
A CIA e o Pentágono acreditavam que a URSS estava investindo em:
- lavagem cerebral,
- hipnose militar,
- drogas que mudavam comportamento,
- e até capacidades psíquicas.
O gatilho foi a Guerra da Coreia (1950–1953), quando soldados americanos capturados apareciam confessando crimes que não cometeram. Os EUA entenderam isso como “prova” de que os comunistas dominavam técnicas de controle mental.
Mesmo que hoje saibamos que tais confissões eram resultado de tortura física e psicológica, à época isso foi interpretado como “arma secreta soviética”.
A CIA, então, concluiu:
“Se a Rússia tem uma técnica de controle mental, nós precisamos de uma melhor.”
A partir daí, o MK-Ultra nasceu.
CAPÍTULO 2 — O nascimento do Projeto MK-Ultra (1953)
Em 13 de abril de 1953, o diretor da CIA Allen Dulles assinou um memorando autorizando oficialmente o projeto MK-Ultra.
Foi entregue o comando a Sidney Gottlieb, químico e chefe da Divisão de Serviços Técnicos da CIA — um homem que, décadas depois, seria descrito por colegas como “o Dr. Joseph Mengele norte-americano”.
Os 3 objetivos principais eram:
- Dominar técnicas de interrogatório aprimorado
- Descobrir substâncias que tornassem pessoas mais sugestionáveis
- Explorar limites da dor psicológica e da exploração mental
Gottlieb tinha carta branca para:
- contratar cientistas,
- financiar pesquisas secretamente,
- usar cobaias humanas sem consentimento,
- e realizar experimentos em solo americano e estrangeiro.
O MK-Ultra se dividiu em 149 subprojetos documentados (e outros desconhecidos), envolvendo universidades, hospitais, prisões e bases militares.
CAPÍTULO 3 — As técnicas utilizadas: ciência, tortura e improvisação
As técnicas investigadas no MK-Ultra variavam de científicas a absurdamente cruéis.
1. Drogas psicodélicas (principalmente LSD)
Era considerado “a chave que podia abrir a mente humana”.
Testes incluíam:
- doses massivas,
- administração “invisível” em bebidas,
- combinações com privação de sono,
- observação de civis que não sabiam que haviam sido dopados.
2. Hipnose
Tentativas de induzir:
- amnésia,
- obediência,
- regressão,
- criação de personalidades artificiais.
3. Privação sensorial extrema
Experimentos envolviam:
- isolamento,
- tanques de flutuação,
- salas brancas sem estímulos,
- ausência total de luz, som e tato.
Alguns voluntários desenvolviam:
- alucinações,
- paranoia,
- surtos psicóticos,
- dissociação.
4. ECT reforçado (Choques elétricos combinados com drogas)
Alguns registros descrevem:
- “apagamento de memória”
- “reset cognitivo”
- “indução de coma seguido de sugestão hipnótica”
O caso mais famoso é o do psiquiatra Ewen Cameron, financiado secretamente pelo MK-Ultra para “reprogramar” pacientes em Montreal.
5. Exploração sexual como instrumento de manipulação
O subprojeto mais infame foi Operation Midnight Climax:
- bordéis falsos montados pela CIA,
- prostitutas contratadas para atrair homens,
- LSD administrado sem consentimento,
- tudo gravado por espelhos falsos.
6. Técnicas mistas de tortura
Combinações de:
- drogas,
- hipnose,
- temperaturas extremas,
- privação de sentidos,
- isolamento,
- ameaças psicológicas.
Nenhum método era considerado ético, se funcionasse, era aprovado.
CAPÍTULO 4 — O escândalo da destruição dos arquivos (1973)
Este é o ponto crítico da história.
Em 1973, Richard Helms, prestes a deixar o cargo de diretor, ordenou que todos os arquivos do MK-Ultra fossem destruídos.
Motivo declarado:
“A CIA não deveria manter documentos que pudessem prejudicar a agência no futuro.”
Com isso:
- mais de 80% do projeto desapareceu,
- relatos de vítimas ficaram sem prova,
- subprojetos inteiros sumiram da história,
- investigadores do Senado ficaram às cegas.
Somente 20 mil páginas sobreviveram por acidente porque estavam arquivadas como documentos financeiros.
Essa lacuna gigantesca é a principal razão pela qual o MK-Ultra se transformou em uma entidade híbrida entre história real e lenda moderna.
CAPÍTULO 5 — O Montauk Project: quando o mito cresce onde faltam fatos
O Montauk Project se tornou uma das lendas modernas mais persistentes sobre controle mental.
A premissa:
Na base militar de Montauk, Nova York, crianças teriam sido submetidas a:
- controle mental extremo,
- experimentos psíquicos,
- teletransporte,
- viagens no tempo,
- criação de realidades,
- manipulação genética.
Os principais “sobreviventes” são Preston Nichols e Al Bielek — figuras que misturam memórias recuperadas, regressão hipnótica, ficção e experiências místicas.
Por que Montauk explodiu?
- A destruição dos arquivos do MK-Ultra deixou espaço para especulações.
- Existia uma base militar real em Montauk.
- O medo dos anos 80 (abuso infantil, seitas, rituais) potencializou a narrativa.
- Autores conspiratórios lucraram com o tema.
- A ideia de “crianças com poderes” é culturalmente poderosa.
Mesmo desacreditado por todas as instâncias científicas, o Montauk Project tornou-se o mito psíquico americano, assim como o Triângulo das Bermudas foi o mito náutico do século XX.
CAPÍTULO 6 — Nina Kulagina: a mulher que movia objetos com a mente
Enquanto os americanos mergulhavam no MK-Ultra, a União Soviética fazia seus próprios experimentos, incluindo o estudo de pessoas que supostamente possuíam psicocinese (movimentação de objetos sem toque).
A mais famosa foi Nina Kulagina, filmada movendo:
- caixas,
- fósforos,
- bússolas,
- bolas pequenas.
Veja o vídeo de Nina Kulagina abaixo:
Relatórios da inteligência norte-americana realmente existiram, considerando se:
- os eventos eram fraude,
- deveriam ser monitorados,
- tinham implicações militares.
Para a CIA, qualquer possibilidade — por mais improvável — tinha valor estratégico.
Kulagina inspirou:
- livros de parapsicologia,
- estudos militares soviéticos,
- e mais tarde, personagens como Eleven, de Stranger Things.
CAPÍTULO 7 — Outras figuras e casos relacionados
1. Uri Geller
Mediunidade, telepatia, dobrar colheres.
Confirmado: foi avaliado pelo governo americano no Stargate Project (anos 70–90), programa real sobre ESP e visão remota.
2. Remote Viewers da CIA
Visão remota para espionagem.
Documentos do Stargate Project são públicos.
3. Experimentos em prisões e hospitais psiquiátricos
Subprojetos envolveram:
- presos de segurança máxima,
- pacientes psiquiátricos,
- militares em treinamento.
Todos oficialmente confirmados.
CAPÍTULO 8 — Stranger Things: quando a ficção se alimenta da história
Os showrunners Matt e Ross Duffer confirmaram que:
- A série originalmente se chamaria “Montauk”.
- O laboratório de Hawkins é inspirado no MK-Ultra.
- Eleven mistura mitos do Montauk com casos psi reais.
- O ambiente da Guerra Fria norte-americana dos anos 70 e 80 foi um dos pilares.
Em outras palavras:
Stranger Things é ficção, mas suas raízes estão profundamente fincadas no MK-Ultra e nos medos reais da Guerra Fria.
CAPÍTULO 9 — Linha do Tempo Completa (resumida)
1950–1953
EUA percebem suposta “lavagem cerebral” soviética.
1953
Allen Dulles cria o MK-Ultra.
1953–1963
Período mais ativo do projeto.
1964–1973
Subprojetos menores continuam.
Operações em prisões e hospitais psiquiátricos.
1973
Richard Helms ordena destruição dos arquivos.
1975
Church Committee expõe crimes da CIA.
1977
Audiências do Senado revelam fragmentos do MK-Ultra.
1980–1990
Crescimento das teorias de Montauk.
2016
Stranger Things leva o assunto ao mainstream global.
CAPÍTULO 10 — O que ficou provado, o que é plausível e o que é lenda
Fatos comprovados (documentos oficiais):
- Experimentos com LSD sem consentimento
- Abusos de direitos humanos
- Subprojetos em universidades
- Uso de bordéis clandestinos
- Choques, hipnose, privação sensorial
- Financiamento secreto de cientistas
Plausível (mas não comprovado):
- Interesse militar em poderes psi
- Análise de casos como Kulagina
- Objetivo militar de manipulação comportamental em massa
Lenda:
- Crianças com superpoderes
- Portais dimensionais
- Experimentos de viagem no tempo
- Escavações em Montauk liberando monstros
CAPÍTULO 11 — Por que o MK-Ultra continua vivo?
O MK-Ultra é o exemplo perfeito de como:
- segredo governamental,
- destruição de provas,
- verdade fragmentada,
- abuso de poder,
- e ficção científica,
podem se unir em uma das narrativas mais poderosas do século XX.
Quando uma instituição destrói documentos sobre violação massiva de direitos humanos, ela não apaga a culpa. Ela cria um buraco onde qualquer história pode habitar.
O MK-Ultra não é apenas história: é um espelho da nossa relação com o poder.
Conclusão: O legado permanente do Projeto MK-Ultra
O Projeto MK-Ultra foi real e aterrorizante, um episódio em que ciência, paranoia e política formaram uma mistura tóxica. Mas também se tornou base para dezenas de mitos modernos, alguns completamente fantasiosos, outros levemente enraizados na realidade.
O que torna este assunto irresistível é a combinação de:
- provas oficiais
- lacunas propositais
- vítimas silenciadas
- ficções inspiradas
- documentos queimados
- e perguntas sem respostas
No fim, o MK-Ultra é uma verdadeira fronteira entre ciência, abuso, psicologia, guerra fria, ficção e conspiração.
E talvez sua maior lição seja esta:
Quando o Estado opera nas sombras, a imaginação pública preenche o que falta, e às vezes, a imaginação é mais sombria do que a própria realidade.
Fontes primárias e documentos públicos sobre MK-Ultra
• Página de arquivos da CIA (FOIA Reading Room)
- A própria CIA disponibiliza documentos desclassificados sobre o MK-Ultra. Por exemplo: “MKULTRA” com número de caso FOIA 06760269. (CIA)
- Link de acesso: CIA Reading Room → keyword “MKULTRA” (página oficial). (CIA)
• Audiências do Senado dos EUA — “Project MKULTRA: The CIA’s Program of Research in Behavioral Modification” (3 de agosto de 1977)
- Documento oficial de audiência conjunta do Comitê Seletivo de Inteligência e Subcomitê de Saúde e Pesquisa Científica. Contém depoimentos, anexos com relatórios sobreviventes, subprojetos e discussão sobre destruição de arquivos. (CIA)
- PDF completo disponível via CIA FOIA / site oficial do Senado (Government Printing Office). (intelligence.senate.gov)
• Relatório interno de 1975 / memorando da CIA reconhecendo destruição dos arquivos MK-Ultra
- Documento classificado originalmente que informa que “os arquivos MK-ULTRA e correspondências não mais existem”, sete caixas foram “recuperadas” e destruídas em 31 de janeiro de 1973, por ordem do então chefe da Divisão Técnica da CIA. (CIA)
• Subprojetos MK-Ultra — exemplos de “subprojectos” com código, datas e breve descrição
- Há documentos relativos a subprojetos específicos (por exemplo, “MKULTRA SUBPROJECT 139”) — mostram que o MK-Ultra não era singular, mas composto por dezenas de subprojetos com diferentes objetivos, muitos envolvendo “modificação comportamental”. (CIA)
• Correspondência interna — tentativas de notificação de possíveis sujeitos submetidos a testes sem consentimento
- Documentos de notificação e revisão interna (“MKULTRA Notification Program”) mostram que a CIA, posteriormente às revelações, preparou relatórios sobre quem poderia ter sido “sujeito inconsciente”. (CIA)
Contextualização histórica a partir das fontes
Com base nesses documentos oficiais:
- O MK-Ultra foi aprovado em 1953 pela direção da CIA. (CIA)
- O programa envolveu pelo menos 149 subprojetos com diferentes frentes: drogas psicodélicas, hipnose, privação sensorial, “modificação de comportamento”, muitas vezes em instituições acadêmicas, hospitais, prisões e safe houses secretas. (intelligence.senate.gov)
- Muitas das atividades envolviam testes em pessoas sem consentimento informado, há reconhecimento dessas operações nas audiências de 1977. (CIA)
- Em 1973 foi ordenada a destruição dos arquivos principais. Mesmo assim, cerca de 20 mil páginas sobreviveram, graças a documentos financeiros e “achados” em arquivos de orçamento da CIA, e foram redescobertas anos depois. (intelligence.senate.gov)
Links diretos para os documentos (PDFs oficiais, FOIA, relatórios)
| Documento / Fonte | Descrição |
|---|---|
| CIA Reading Room — “MKULTRA” (FOIA #06760269) | Página de arquivo da CIA com documentos desclassificados relacionados ao MK-Ultra. (CIA) |
| 1977 Senate Hearings — “Project MKULTRA: … Behavioral Modification” | Relatório oficial das audiências do Senado, com depoimentos, anexos, relatórios sobreviventes. (CIA) |
| Memorando interno da CIA — destruição de arquivos MK-Ultra (1973) | Prova de que muitos relatórios foram deliberadamente destruídos. (CIA) |
| Documento de “Subproject 139” | Exemplo concreto de um dos subprojetos do MK-Ultra, com data e orçamento relacionados a experimentos. (CIA) |
| “MKULTRA Notification Program” | Correspondência interna da CIA sobre a notificação de sujeitos potencialmente submetidos a testes sem consentimento informado. (CIA) |
Olhar Destro — Fatos. Fé. Liberdade.



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