A Zona Franca de Manaus: O Paraíso Fiscal que Trava o Brasil
Poucos brasileiros compreendem o que realmente é a Zona Franca de Manaus. Para muitos, trata-se de um polo industrial que gera empregos na Amazônia. Para outros, um símbolo de “desenvolvimento regional”. Mas quando mergulhamos nos números, na história e nos efeitos reais sobre a economia nacional, a realidade é muito mais complexa — e profundamente incômoda.
A verdade é que a Zona Franca de Manaus (ZFM) nasceu como um experimento econômico artificial durante a ditadura militar, tornou-se dependente de privilégios fiscais bilionários e, décadas depois, funciona como um dos maiores entraves para que o Brasil reduza impostos, aumente a competitividade e simplifique seu sistema tributário.
Este texto revela, com profundidade e clareza, o que é a Zona Franca de Manaus, por que ela existe, quanto custa ao país, por que não gerou os resultados prometidos e como se tornou um sistema de privilégios que afeta todos os brasileiros — mesmo aqueles que jamais pisaram na Amazônia.
1. A Zona Franca de Manaus — Um Paraíso Fiscal Criado no Meio da Amazônia
A ZFM foi criada em 1967, pelo Decreto-Lei nº 288, em pleno regime militar. Sua justificativa oficial era promover “desenvolvimento regional” e “ocupar a Amazônia”.
Mas, por trás disso, havia uma lógica típica do planejamento central da época:
Burocratas em Brasília decidiram, no mapa, onde a indústria brasileira deveria existir.
A escolha do local foi, desde o começo, um equívoco econômico monumental:
- Manaus fica a milhares de quilômetros dos principais mercados consumidores.
- O transporte marítimo e fluvial aumenta custos e prazos.
- Não existiam fornecedores, cadeias produtivas, infraestrutura ou mão de obra especializada.
Para compensar essas desvantagens, o governo criou um oásis artificial de isenções fiscais, incluindo:
- Até 88% de redução do imposto de importação
- Isenção total de IPI
- Redução de 75% do IRPJ
- Redução de até 100% do ICMS
- Terrenos praticamente gratuitos
- Isenção de PIS/COFINS
O resultado foi previsível:
empresas instalaram linhas de montagem na floresta não porque fazia sentido — mas porque era barato em impostos.
2. O Modelo Que Se Tornou “Eterno”: Prorrogação até 2073
A ZFM deveria ser temporária. Era um experimento emergencial.
Porém, em 2014, o Congresso prorrogou o modelo até 2073.
Ou seja:
mais de 100 anos de privilégios fiscais garantidos por lei.
Nenhum outro país oferece um benefício tão longo a multinacionais para permanecerem num local sem vantagens estruturais.
O ponto central é simples:
A Zona Franca de Manaus nunca criou competitividade real — apenas dependência permanente.
3. O Custo Bilionário para o Brasil — e o Baixo Retorno Econômico
Desde os anos 2000, a renúncia fiscal explodiu.
• 2004: R$ 5,5 bilhões
• 2014: R$ 24,3 bilhões
(E atualizações recentes estimam renúncia anual ainda maior.)
Para entender o absurdo, veja este número:
A renúncia fiscal corresponde a ~R$ 250 mil por ano para cada trabalhador empregado na ZFM.
Mesmo com incentivos gigantescos, o desempenho econômico foi fraco:
- O PIB do Amazonas cresceu menos que a média nacional.
- O Valor Agregado Bruto ficou abaixo de estados com muito menos incentivos.
- Não houve criação de centros de inovação, tecnologia avançada ou exportações relevantes.
O estudo da Universidade Católica de Brasília mostrou algo ainda mais grave:
A cada R$ 1 bilhão a mais de produção, o salário médio só aumenta R$ 0,90.
Ou seja, os maiores ganhos ficam:
- com as multinacionais
- com as empresas financeiras
- com os grandes grupos instalados na região
A população, em geral, recebe pouco desse gigantesco investimento público indireto.
4. A Logística Impossível — e o Modelo que “Vicia” Governo e Empresas
Manaus não é apenas distante — é logisticamente isolada.
Uma TV produzida em São Paulo chega ao mercado dentro de horas.
A mesma TV produzida em Manaus leva cerca de 10 dias.
Isso cria um paradoxo econômico:
Quanto pior a logística, mais incentivos são exigidos.
Quanto mais incentivos, menos necessidade de eficiência.
É um ciclo vicioso perfeito.
Sem incentivos:
- nenhuma empresa permaneceria
- nenhuma fábrica seria economicamente viável
- toda a “indústria” desapareceria
Não por acaso:
Se os incentivos acabarem, as fábricas fecham em poucos meses.
5. A Zona Franca e o Restante do Brasil — o Custo Oculto: Impostos Altos Para Todos
Este é o ponto menos compreendido e mais importante:
A Zona Franca de Manaus só se mantém porque o resto do Brasil paga impostos altíssimos.
Ou seja:
- sempre que tentam reduzir impostos de importação → a ZFM barra
- sempre que tentam simplificar o sistema tributário → a ZFM barra
- sempre que tentam baratear eletrônicos, consoles, bicicletas → a ZFM barra
Por quê?
Porque a ZFM só é “competitiva” devido às distorções do sistema nacional.
Se o Brasil tivesse impostos baixos, ela perderia sua vantagem artificial.
Esse é o nó central:
A ZFM impede o Brasil de se tornar um país de impostos mais baixos.
Exemplos:
• 2017 — a PEC dos videogames
Poderia baratear PlayStation, Xbox e consoles nacionais.
Foi enterrada após lobby da indústria em Manaus.
• Bicicletas e o programa de mobilidade verde
4 empresas de Manaus foram protegidas.
Mais de 400 empresas em outros estados foram prejudicadas.
• Refrigerantes (Coca-Cola, Ambev)
Produção em Manaus recebeu incentivos permanentes — para fabricar refrigerante.
6. A ZFM como entrave institucional — e a economia política dos privilégios
É o clássico problema dos incentivos assimétricos:
- Poucos ganham muito (empresas, políticos, fornecedores regionais)
- Muitos são prejudicados (todos os brasileiros que pagam mais caro por tudo)
Os poucos são organizados e “bem-relacionados” politicamente.
Os muitos não são.
Por isso:
A Zona Franca de Manaus persiste não porque funciona,
mas porque os beneficiados têm mais poder político do que os prejudicados.
Como consequência:
- A indústria brasileira não se torna competitiva.
- O sistema tributário permanece disfuncional.
- O país paga mais caro por produtos simples.
- Brasil segue preso no atraso.
7. O Paradoxo Final: A Zona Franca de Manaus Impede a Amazônia de se Desenvolver
Esse ponto raramente é discutido:
A ZFM concentrou toda a economia no município de Manaus.
O interior do Amazonas permaneceu praticamente igual ao que era na década de 60.
Nada foi integrado:
- não surgiram estradas
- não surgiram polos regionais
- não surgiram cadeias produtivas internas
- não surgiu vocação econômica sustentável
O resultado é:
O modelo que deveria desenvolver a Amazônia acabou isolando o estado ainda mais.
8. Conclusão — A Zona Franca de Manaus é o Maior Erro Econômico da História do Brasil?
Depois de quase 60 anos, podemos afirmar:
- Não gerou competitividade industrial
- Não criou inovação
- Não estimulou exportações
- Não levantou a renda regional
- Não diversificou a economia
- Não integrou a Amazônia
Mas:
- Custou centenas de bilhões ao país
- Impediu reformas tributárias importantes
- Barrou reduções de impostos
- Protegeu grupos de interesse poderosos
- Manteve consumo artificialmente caro para todos os brasileiros
A Zona Franca de Manaus é, em essência:
um símbolo de como decisões artificiais, tomadas por Brasília em 1967, ainda moldam negativamente o destino econômico do Brasil em 2025.
O Brasil pagou — e continua pagando — um preço altíssimo por um modelo que não deveria ter sobrevivido ao século XX.



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