Bilbo Bolseiro e as lições valiosas em O Hobbit

Bilbo Bolseiro

O Hobbit, obra-prima de J.R.R. Tolkien, é muito mais que uma simples aventura fantástica. É uma narrativa profundamente simbólica que esconde, sob a aparente simplicidade de uma história juvenil, lições atemporais sobre coragem, humildade, vocação e a luta entre a luz e as trevas. Neste artigo, exploraremos a jornada transformadora de Bilbo Bolseiro e as poderosas mensagens que Tolkien nos legou.

A Estrutura da Jornada do Herói

A narrativa de O Hobbit segue o clássico arquétipo da Jornada do Herói, mas com a maestria característica de Tolkien. Podemos dividir essa trajetória em três atos principais:

  1. A Partida do Condado: O chamado à aventura.
  2. A Iniciação: As provações e aliados ao longo do caminho.
  3. O Retorno: O regresso transformado ao lar.

1. O Chamado à Aventura: Saindo da Zona de Conforto

Bilbo Bolseiro começa sua história como um hobbit profundamente apegado ao seu estilo de vida no Condado: uma existência ordenada, repleta de confortos materiais, refeições regulares e uma aversão natural a qualquer coisa que cheire a perigo. Sua vida é, nas palavras do próprio Tolkien, “burguesa” e “acomodada”.

A chegada de Gandalf, o mago, funciona como o chamado à vocação. Na simbologia tolkieniana, Gandalf representa o profeta ou o sábio ancião, aquele que desperta o indivíduo para uma missão maior. Ele não força Bilbo, mas provoca uma inquietação, uma fagulha de algo maior adormecida no coração do hobbit.

A invasão de sua casa pelos anões, quebrando a ordem e o conforto do seu lar, simboliza a quebra necessária do apego material. É o primeiro passo para que Bilbo perceba que há mais na vida do que a simples posse de bens.

2. As Provas e o Amadurecimento: Forjando o Caráter

A jornada de Bilbo é uma sequência de provas que forjam seu caráter. Cada encontro carrega um profundo significado simbólico:

  • Os Trolls: Representam a grosseria, a barbárie e as paixões baixas. A vitória sobre eles não é pela força, mas pela astúcia, mostrando que a inteligência pode superar a brutalidade.
  • A Espada “Ferroada”: A primeira arma que Bilbo encontra não é uma espada comum. Ela “brilha” quando os Orcs estão próximos. Este é um símbolo poderoso do discernimento entre o bem e o mal. A luz da espada ilumina as trevas, permitindo identificar o inimigo. Na tradição medieval, a espada também representa o sacrifício do guerreiro por uma causa maior.
  • Rivendell e os Elfos: A passagem por Rivendell oferece a Bilbo um vislumbre de uma tradição mais elevada. Os Elfos, seres mais próximos do divino na mitologia de Tolkien, conectados à natureza, à arte e à harmonia (representada por suas canções), mostram a Bilbo que existe um mundo de beleza e sabedoria muito além da simplicidade do Condado.
  • Gollum e o Anel: O encontro nas cavernas é um dos momentos mais cruciais. Gollum é o espelho distorcido de Bilbo: um hobbit corrompido pelo poder do Anel. O jogo de charadas é uma batalha de intelecto, onde duas charadas se destacam:
    • A charada sobre o “tempo” que consome todas as coisas, que Gollum não compreende plenamente, simbolizando como o apego ao mal (o Anel) distorce a percepção da mortalidade e da passagem do tempo.
    • A pergunta final de Bilbo — “O que tenho no meu bolso?” — revela como a paixão desordenada de Gollum pelo Anel o cega para o óbvio. Este encontro é uma prefiguração sombria do que Bilbo poderia se tornar.
  • As Aranhas da Floresta das Trevas: As aranhas são um símbolo clássico do mal e do perigo. Enfrentá-las sozinho marca um ponto de virada para Bilbo, onde ele precisa usar sua coragem e esperteza para salvar seus companheiros, consolidando seu papel como membro vital da companhia.
  • A Floresta das Trevas e o Caminho: A advertência para “não saírem do caminho” é uma poderosa metáfora moral. Desviar-se do caminho traçado pela sabedoria (representada por Gandalf e pelos mapas) leva ao perigo e à perdição. É um alerta sobre a importância de se manter nos princípios, mesmo quando não se compreende totalmente o motivo.

3. O Confronto Final e a Vitória sobre a Própria Sombra

O clímax da jornada ocorre na Montanha Solitária, com o dragão Smaug.

  • Smaug, a Doença do Dragão: Smaug é a personificação da ganância e da soberba. Ele não usa seu tesouro; ele apenas se deita sobre ele, assim como Bilbo, no início, se apegava aos seus bens no Condado, mas em uma escala monstruosa. A “doença do dragão” é a corrupção da alma pelo desejo de posse.
  • O Confronto de Bilbo: Bilbo não enfrenta Smaug com força bruta, mas com astúcia e palavras. O dragão, em sua soberba, é levado a revelar sua própria fraqueza. A conversa entre eles é um duelo psicológico, onde Bilbo usa “títulos” soberbos para alimentar a hybris (desmedida) do dragão, mostrando que a vaidade pode ser uma armadilha fatal.
  • O Batismo Simbólico: Em um momento crucial, Bilbo cai na água e sai “renascido”. Este é um claro símbolo do batismo, representando a morte para a vida antiga (o hobbit apegado e temeroso) e o renascimento para uma nova vida (o herói desprendido e corajoso). Ele confronta a visão de mundo de Smaug — a de viver eternamente sobre um tesouro — com a visão de quem compreende o ciclo da morte e da vida eterna.

4. O Retorno Transformado: A Verdadeira Riqueza

A conclusão da história é talvez a lição mais importante. Ao retornar ao Condado, Bilbo descobre que seus parentes venderam seus pertences, acreditando que ele estava morto.

A reação de Bilbo é a de um homem transformado: ele não se importa. A verdadeira riqueza que ele conquistou não era o ouro que trouxe consigo, mas as virtudes que forjou em sua jornada: coragem, amizade, sabedoria e, acima de tudo, desprendimento.

Ele percebe que o valor está na alma, não nas coisas. O Condado continua sendo seu lar, mas o hobbit que voltou não é mais o mesmo que partiu.

Lições Eternas da Jornada de Bilbo Bolseiro

  1. A Coragem se Encontra nos Pequenos Atos: Bilbo não é um herói tradicional. Sua coragem é a coragem do homem comum que, apesar do medo, avança. Ele nos ensina que a bravura não é a ausência de medo, mas a ação apesar dele.
  2. A Vocação nos Tira da Mediocridade: Todos temos um “Gandalf” que nos chama para algo maior. Aceitar esse chamado, mesmo que nos tire da zona de conforto, é o que dá significado profundo à nossa existência.
  3. O Apego é uma Prisão: Tanto o apego de Bilbo aos seus confortos quanto o de Smaug ao tesouro são formas de escravidão. A verdadeira liberdade está no desprendimento.
  4. A Tradição e a Sabedoria Antiga são Guias: A jornada só é bem-sucedida porque Bilbo e os anões confiam nos mapas, nas runas e nos conselhos de Gandalf. É um lembrete da importância de ouvir a sabedoria das gerações passadas.
  5. Há uma Narrativa Maior: O final do livro deixa claro que as “velhas profecias” se cumpriram. Isso aponta para uma visão de mundo onde nossas jornadas individuais fazem parte de um plano maior, uma dança entre o livre-arbítrio e a Providência.

Conclusão: Um Convite Existencial

A jornada de Bilbo Bolseiro em O Hobbit é, no fundo, um convite para nossa própria jornada. Tolkien não queria apenas que lêssemos uma história; ele queria que fôssemos impactados por ela, que aceitássemos o chamado à nossa própria “aventura” — o chamado à virtude, à coragem, à fé e à descoberta do nosso papel em uma história maior do que nós mesmos.

Ler O Hobbit com esse olhar não é apenas um exercício de imaginação; é um encontro com as verdades mais profundas da condição humana, disfarçadas na mais pura e cativante das aventuras. Bilbo Bolseiro nos mostra que os menores e mais simples podem, com um coração valente, alterar o curso do futuro.

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